sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

PROPOSTA 001: O bloco do eu sozinho

Foi no carnaval de 1919 que Júlio Silva — que mais tarde tornaria-se dirigente do Flamengo — saiu pelas ruas do Rio de Janeiro fantasiado e segurando uma placa onde se lia: "Bloco do eu sozinho". O sentimento de solidão em plena folia de carnaval — e a marcação do adjetivo sozinho reforça a idéia — embora seja destoante daquilo esperado durante a festa, ou talvez por isso mesmo, tornou-se um tópico bastante recorrente na arte brasileira. Obviamente este tópico tem precedentes exteriores — quem se esquecerá do "Pierrot apaixonado"? — que são recuperados, conscientemente ou não, pelos artistas. Parece-me uma feliz coincidência que Manuel Bandeira tenha publicado seu livro Carnaval, com poemas versando justamente sobre este carnaval construído por um sujeito solitário em seus devaneios "sem nenhuma alegria", justamente em 1919.


POEMA DE UMA QUARTA-FEIRA DE CINZAS

Entre a turba grosseira e fútil
Um Pierrot doloroso passa.
Veste-o uma túnica inconsútil
Feita de sonho e de desgraça...


O seu delírio manso agrupa
Atrás dele os maus e os basbaques.
Este o indigita, este outro apupa...
Indiferente a tais ataques,

Nublada a vista em pranto inútil,
Dolorosamente ele passa.

Veste-o uma túnica inconsútil,
Feita de sonho e de desgraça...

(BANDEIRA, M. Estrela da vida inteira. RJ: Nova Fronteira, 1993, p.100)




O "bloco do eu sozinho" de Júlio Silva continuou ativo até a sua morte em 1979, já que não houve substituição do "eu". No entanto, a expressão e a própria idéia de um bloco — que pressupõe coletividade — configurado por um único indivíduo tornaram-se muito difundidas no Rio de Janeiro — em off: creio que até mesmo Sílvio Santos aproveitou-se da expressão conclamando a "caravana do eu sozinho" em seus programas dominicais para as moças que não participavam de nenhuma caravana. Em 1967, Marcos Valle, em parceria com Ruy Guerra, compôs uma bela canção, "Bloco do eu sozinho", na qual constrói um personagem que, sendo sozinho no ambiente de carnaval, projeta-se em todas as situações da festa — "sou faz-tudo e não sou nada" — com certa melancolia, presente no canto e na cadência do violão. Abaixo a versão de Joyce para esta canção encontrada no disco Bossa Nova Singers (2007).


Bloco Do Eu Sozinho - Joyce

Quando o Los Hermanos lançou seu segundo disco, O bloco do eu sozinho (2001), fez questão de deixar muito claro sua posição no panorama da música popular. Já desde o título percebe-se um enfoque no diálogo com a tradição musical e, ao mesmo tempo, oposição a certos maneirismos encontrados em grande parte dos "herdeiros" da MPB — "toda bossa é nova e você não liga se é usada". A canção em homenagem a Tom Zé ("cadê teu suin-?"), o pandeiro no final de "Assim será", o uso de diálogos na construção das letras ("A flor"), a revisão debochada da musicalidade anteriormente cultivada por eles mesmos ("Tão sozinho"), a própria reiteração da distância entre o eu e o você — "aí então um belo dia a euforia vai passar". Assim a noção de solidão torna-se uma metonímia da situação do sujeito sesnsível ante as distâncias impostas ("Fingi na hora ri", "Sentimental", etc) e, por desdobramento, da banda diante da cenário da MPB.


Todo Carnaval Tem Seu Fim - Los Hermanos

O exercício, pois, é justamente construir poemas a partir deste tópico, o "bloco eu sozinho", atentando para as especificidades desta metáfora/metonímia nas fotos, poema e canções aqui expostos e dialogando com estes.

(fonte das fotos: CPDoc JB e Acervo da Biblioteca Nacional, respectivamente)

3 comentários:

Vagno Fernandes disse...

Como faço para postar os poemas?

JP Hergesel disse...

Como faço para postar os poemas? [2]

bruna disse...

Excelente artigo.